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domingo, 10 de março de 2013

Isto que sinto

Sodade - Cesaria Évora

Como se chama isto que sinto
Quando penso em ti?
Dizer que sinto a tua falta parece-me tão pouco
O amor que sinto por ti está tão presente
Como se ainda estivesses aqui.
O sabor das refeições que partilhámos, ainda o sinto
As gargalhadas e os abraços
Os nossos sonhos ainda pairam por aqui!

Do que vivemos juntos e do que vivi sozinha
Disso também sinto a falta.
Quando me lembro de ti
Há uma dor que aperta o meu coração.
Mas, ao mesmo tempo, sinto-me feliz
Pelo tanto que me deste
Pelo dom da vida e pelo amor
Pela infância e pelo que aprendi contigo.

Isto que sinto, aqui, bem dentro do peito
Só pode ter um nome, Saudade.
Esse sentimento intrinseco em cada um
Que é muito mais do que nostalgia
Muito mais do que lembrar
Muito mais do que sentir a falta
Muito mais do que angústia ou tristeza.
Pai, o que sinto por ti só pode ter um nome, Saudade!


Texto poético subordinado ao tema Saudade para a Fábrica das Letras

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Gratia Plena

Para mim, a palavra gratidão é sinónimo de outra palavra bem mais pequena, a palavra mãe. 
A minha mãe é a pessoa que, de entre todas, me inspira este sentimento de modo mais profundo. Gratidão pelo dom da vida que me transmitiu, pelos meus primeiros passos que ela amparou, pelo seu amor incondicional desde o primeiro minuto. Gratidão por tudo o que hoje sou porque a ela o devo de muitas formas. 
Um momento crucial marcou, de forma indelével, a nossa história. O momento em que soubemos que o homem das nossas vidas, o meu pai, tinha morrido. A vida nunca mais foi igual. A minha mãe lutou, sacrificou-se para que eu pudesse realizar os meus sonhos como se ele nunca tivesse partido. Inesquecível o seu sorriso no dia em que entrei para a faculdade. Não foi fácil mas, juntas, conseguimos ir ultrapassando os obstáculos.
A minha mãe esteve sempre a meu lado, pude contar sempre com o seu apoio mesmo quando tomei decisões com as quais ela não concordava. Quando aconteceram os factos que conduziram a que este blogue existisse, ela não me mostrava o seu sofrimento por mim, pelos problemas que eu enfrentava, para não aumentar a minha dor.
Infelizmente, eu não sou capaz de lhe mostrar como a amo, como lhe estou grata por tudo o que fez por mim, pela sua presença constante. Mesmo que a veja pouco, mesmo que não fale com ela todos os dias, sei que está sempre lá para mim. Nem que seja para a tarefa mais simples do dia-a-dia.
Obrigada, Mãe...e parabéns.

Nota: Inspirado pelo aniversário da minha mãe e como resposta ao desafio do blogue Fábrica das Letras.

domingo, 9 de dezembro de 2012

O dinheiro não traz felicidade mas ajuda, mesmo, muito



Nos tempos que vivemos hoje, importa definir quais são as necessidades básicas, aquelas que permitem sustentar a vida do corpo, e as coisas que necessitamos para sustentar a vida do espírito. Para além de alimentar o estômago, é também importante alimentar o cérebro. Ler um bom livro não é menos importante que ter uma cama quente e fofa onde descansar. Mas nem tudo o que se compra é necessário. E, verdade seja dita no meu caso particular, muito daquilo que comprei nos últimos anos, não me fazia, realmente, falta. Nem ao corpo nem ao espírito. Tantas coisas que comprei apenas porque desejei ter, por que achei que só se seria feliz se tivesse aqueles sapatos, aquela mala, mais aquela camisola. Doce ilusão, nada disso me encheu a alma completamente. No entanto, gastei dinheiro em algo que não necessitava mas que me fez muito bem ao espírito, tanto que voltava a repetir como por exemplo viajar, ir ao teatro ou a concertos. Não precisava de nada disso para sobreviver mas precisava disso para crescer como pessoa.

Há muito que a sabedoria popular diz "o dinheiro não traz felicidade". Alguém se lembrou de acrescentar "mas ajuda muito". Quer uma frase que outra tem o seu quê de verdade. Há pobres a quem falta tudo falta mas que sabem encontrar a felicidade e ricos extremamente infelizes, sempre de mal com a vida. E o contrário também é verdadeiro.

O dinheiro compra a comida, permite ter um tecto, pagar a conta do gás, da água, da electricidade mas não consegue comprar aquilo que nos faz realmente falta para sermos felizes, a saúde, o amor ou a paz de espírito, coisas que qualquer pessoa deseja possuir.

Chego à conclusão que, para mim, é muito difícil distrinçar o que necessito mesmo daquilo que desejo ter para me sentir bem mesmo que a minha vida disso não dependa.

Tema de reflexão subordinada ao tema: "Sabemos distinguir entre necessidades (aquilo que dependemos para sobreviver) e desejos (o que gostaríamos de ter)?" para a Fábrica das Letras
 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Tecer palavras na Fábrica das Letras


Desde que comecei a movimentar-me pela blogosfera, tropeçava, de vez em quando, na Fábrica das Letras. Em mais de 5 anos nunca tinha tido coragem para participar.

A leitura e a escrita fazem parte da minha vida desde que aprendi a ler e a escrever. Em pequenina, adorava quando a professora mandava fazer uma composição. Só não gostava quando ela mandava lê-la em voz alta porque era muito tímida e detestava estar na ribalta. A timidez também foi determinante para me levar a escrever na adolescência. Páginas e páginas cobertas de prosa romântica e poemas sobre amores platónicos porque tinha muita dificuldade em falar sobre os meus sentimentos. Ao mesmo tempo, os livros foram-me acompanhando ao longo dos anos e comecei a desejar, ardentemente, ser escritora e fazer sonhar os outros como me faziam sonhar a mim. Esta paixão pela palavra escrita fez-me hesitar entre as humanidades e as ciências quando chegou aquela altura, na vida de qualquer estudante, em que é imperioso escolher um caminho por onde seguir. As ciências levaram a melhor e, durante o tempo da faculdade, a paixão pelos livros foi arrefecendo porque era preciso encher a cabeça com outro tipo de letras e palavras.
Mas há paixões que nunca se esquecem. Quando comecei a trabalhar, a pouco e pouco, fui voltando a dedicar algum do meu tempo aos livros. Ao descobrir a blogosfera foi despertando em mim a vontade de ir escrevinhando... Mesmo que ninguém me leia vou, pelo menos, espalhando as minhas palavras pelo vento internáutico.

Só há muito pouco tempo, arranjei a coragem necessária para começar a participar nos desafios da Fábrica das Letras. A consciência de que há muitos que escrevem melhor que eu não me deixava avançar. Só que nesta Fábrica, todos podem trabalhar. O meu talento pode ser limitado mas escrevo com o coração, com a alma... O facto de haver um tema diferente todos os meses, desafia-me e compromete-me. E ajuda-me a ultrapassar a minha inércia.


O tempo que vivemos hoje têm conduzido ao desânimo porque, por mais que nos esforcemos, não conseguimos perceber como ultrapassar as dificuldades. A crise limita-nos, dia após dia, a nossa capacidade para realizar os nossos desejos. Já agora não vamos deixar que nos leve também a nossa capacidade de imaginar e sonhar. Todos os dias vemos, nos noticiários, fábricas a fechar. Para que esta Fábrica não seja mais uma a encerrar portas é preciso o esforço de todos e de cada um em particular. O blogue Fábrica das Letras é como um bordado em que cada participante colabora com um ponto diferente  para chegar a um belo trabalho final.

Que se continue por aqui a "fabricar" letras, palavras, frases, prosa, poesia, imagens e sonhos.

Reflexão para a Fábrica das Letras

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Folhas levadas pelo vento

Desde que a avó falecera, ela nunca mais voltara àquela casa. Já tinham passado quase 30 anos. Quando era miúda sentia-se imensamente feliz por lá e adorava estar com os avós. Durante a sua infância e adolescência, assim que acabavam as aulas, não descansava enquanto os pais não a levavam para a aldeia onde passava, praticamente, todo o Verão. No jardim, sempre bem cuidado, a sua árvore preferida era o velho plátano. O seu avô arranjou-lhe um banco de madeira, onde se colocavam almofadões no Verão, para ela poder estar confortavelmente instalada ali mesmo, na sombra do plátano. Aí ela passava grande parte dos dias de férias na aldeia, era o seu refúgio, onde ela sonhava com o futuro. Ali chorou quando perdeu o avô e, alguns anos mais tarde, a avó. Quando isso aconteceu, não mais fora capaz de lá regressar.

Sem eles, a casa já não era um lar acolhedor. O rádio do avô já não enchia o silêncio e a cozinha já não cheirava a bolos acabados de fazer. Até o banco do plátano desaparecera. O primeiro beijo dera-o ali mesmo, ao seu primeiro amor, no Verão dos seus 16 anos. Ele era um pouco mais velho e também passava o Verão na aldeia. Já em pequenos tinham brincado juntos mas, durante os primeiros anos da adolescência, não se tinham cruzado. Naquele longínquo e quente dia de Julho, quando se reencontraram, a química foi imediata e não se largaram todo o Verão descobrindo juntos o que era o Amor. No banco do plátano, conversavam horas e horas até a avó dela achar que já era muito tarde e chamá-la para dormir. Numa dessas noites de Verão, engoliram o medo que os dominava e beijaram-se timidamente. Quando o Verão acabou despediram-se lavados em lágrimas, cada um para a sua cidade, entre promessas de cartas diárias e um reencontro no Verão seguinte. Mas as promessas foram arrastadas pelo vento do Outono, por novidades do ano escolar que começava e por novas centelhas de amor que adormeceram a doce lembrança daquele amor de Verão. Ela nunca gostara do Outono por isso mesmo. Era uma estação em que se sentia sempre nostálgica.

E, quis o destino, que se viesse despedir da casa dos avós precisamente em Outubro, no início do Outono, e não conseguia fugir da imensa melancolia que a invadia. A casa, onde fora tão feliz, ia ser vendida. A mãe e os tios tinham recebido uma proposta irrecusável nem percebera bem de quem. Nem sequer tinham posto a casa à venda, não percebia como é que alguém se lembrara de a querer comprar. Era a última hipótese de lá voltar, a escritura estava marcada para a semana seguinte. Durante todos os anos em que não voltara fisicamente, voltara em espírito. Sempre que a vida lhe trazia sofrimento, refugiava-se nas memórias daquele tempo e sentia uma vontade imensa de se refugiar na sombra do plátano. No momento da despedida, encostou-se ao tronco e passou em revista os piores e os melhores momentos da sua vida. Lançou-os ao vento como as folhas secas que caiam da árvore.
O sonho de se tornar escritora ficara pelo caminho e contentara-se em ser professora de português. Com vinte e poucos anos casara, vestida de noiva e numa igreja repleta, com aquele que considerara o “homem da sua vida” e com quem pensava envelhecer. O casamento durou 6 anos e acabara entre mentiras, traições e dor pela morte de mais um sonho. Uns anos mais tarde conhecera um homem maravilhoso com quem viveu 18 anos muito felizes mas a vida também o levara, abruptamente, através de um enfarte de miocárdio. De qualquer das vezes sentira vontade de morrer mas o amor dos filhos fora fundamental para ela se levantar. O amor dos filhos e a recordação da imagem de Filipe. Quando ficara sozinha, tivera muita vontade de o procurar, de saber o que tinha sido feito dele mas agora já era tarde para fantasiar como uma adolescente.

O ranger do portão a abrir sobressaltou-a mas pensou tratar-se do tio que lhe emprestara a chave. Sem se virar foi dizendo:

- Ainda nem sequer entrei em casa. O tio já vinha buscar a chave?

- Não, vim ver se eras mesmo tu ou se era uma partida do meu coração.

Ela sentiu um arrepio na espinha, só podia estar a sonhar. Aquela voz era muito parecida com a voz de Filipe. Não tinha coragem para se virar. A pessoa que entrara tocou-lhe no ombro:

- Desculpa se te assustei…

Sim, era mesmo o seu primeiro amor, mais velho, com rugas e cabelo grisalho mas com o mesmo olhar vivo e penetrante. Ela encarou-o mas estava sem palavras:

- Como é que possível… o que…

- Não sabes?! Sou eu que vou comprar esta casa. Vou mudar-me aqui para a aldeia e adoro esta casa, este jardim. Fui muito feliz aqui, sabes? – Disse ele fazendo-lhe um carinho no rosto. – Vamos entrar, temos mais de 30 anos para pôr em dia.

Os dois conversaram durante horas. Ele tinha ido trabalhar para a Alemanha e lá tinha casado mas agora estava divorciado. Depois do divórcio, Filipe olhou para a vida stressante e competitiva que levava e decidiu que era chegada a hora de trocar Frankfurt pela aldeia dos avós.

- Também alimentei a esperança de te reencontrar. Aos longos destes anos todos, quando passava por momentos difíceis no meu casamento, imaginava como seria se tivéssemos continuado juntos, como seria a nossa vida, como é que estarias… - disse ele.

Ela sorriu dizendo:

- Eu também me lembrei muitas vezes de ti mas agora já é tarde. Não podemos recuperar estes 30 anos.

- Tarde porquê? Lá porque estamos no Outono da vida não quer dizer que não seja possível sermos felizes. – E, aproximando-se dela, beijou-a com a mesma doçura de outrora.


Texto de ficção escrito para a Fábrica das Letras

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Despertar

Quando o dia se vai esvaindo e a luz do sol vai sendo substituindo pela escuridão da noite, tudo o  que se viveu, ao longo do dia, parece ficar mais pesado. Os conflitos, os problemas, as mágoas parecem aumentar de modo proporcional ao avanço das trevas. Assim que se deita a cabeça na almofada, o peso acentua-se de tal maneira que. muitas vezes não nos deixa adormecer. Quantos vezes se arranjam estratagemas para adiar a hora de deitar porque a essa hora todos os fantasmas do dia regressam para nos atormentar. E assim  aparece sempre mais qualquer coisa para fazer para deitar, apagar a luz e adormecer. O final do dia é como uma porta que se fecha e nos encerra, sozinhos, com os nossos receios e dramas.




Por isso é que eu prefiro o amanhecer. Quando a luz da manhã começa a entrar pelas frestas da janela arrasta consigo os momentos mais negros. Quanto mais aumenta o brilho do sol, mais insignificantes parecem os problemas que se agigantaram no dia anterior. Os raios de sol fazem renascer a esperança de um dia melhor e mais feliz que o anterior. A própria natureza se renova a cada manhã. Ao despertar, recomeço com esperança. Para mim um novo dia é mais uma oportunidade para ser feliz.

Reflexão subordinada ao tema Recomeços para a Fábrica de Letras


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